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Publicado em 31 de agosto de 2026
Infomoney

Se algum setor vai de vento em popa na tumultuada economia brasileira é o de fundos de situações especiais, ou special situations, especializados em investir em papéis ou negócios de empresas em dificuldades. A onda de recuperações judiciais, marcada nas últimas semanas por Casas Bahia, Marabraz e Habib’s, e o recorde de 9,1 milhões de empresas inadimplentes em junho, segundo a Serasa Experian, abrem uma nova leva de oportunidades para esses fundos.

Várias gestoras se preparam para lançar fundos e captar recursos, em geral multimercados fechados com prazos de cinco a dez anos. “A nova onda de oportunidades é semelhante à que se seguiu ao governo Dilma (Rousseff) e à pandemia de Covid-19”, compara Flávio Aragão, sócio da 051 Capital. “A safra que vai ser montada vai ser espetacular, quem tiver paciência e prazo para esperar vai poder montar uma boa carteira de títulos estressados.”

Acessíveis a investidores qualificados (com mais de R$ 1 milhão investido) e profissionais, os fundos de special situations ganham dinheiro de duas formas: compram dívidas de empresas em dificuldade por preço bem abaixo do valor de face, apostando que a renegociação ou a execução de garantias vai recuperar mais do que o valor investido, ou entram como credores novos, financiando a companhia a taxas elevadas em troca de garantias reforçadas. Em ambos os casos, o retorno depende de processos que levam anos.

O momento atual ajuda o seu crescimento porque, com muitas inadimplências ocorrendo ao mesmo tempo, os credores serão pressionados a repactuar e aceitar descontos maiores, avalia Aragão. Ele lembra que há também a eleição presidencial, que atrapalha os negócios e reduz o apetite do investidor por risco. “Por isso acho que o conjunto da obra é favorável a longo prazo para os fundos de ativos estressados”, afirma.

A 051 prepara a captação de um multimercado fechado de cerca de R$ 500 milhões para investir nesses ativos, o quarto fundo da gestora. A referência é o segundo veículo da casa, montado depois da pandemia, também em um ambiente de estresse, taxas altíssimas e investidor mais parcimonioso.

O potencial de retorno hoje é bem alto, segundo Aragão. “Negócios de crédito estruturado com juros de CDI mais 15%, 17% (cerca de 30% a 32% ao ano) eram raros, mas já voltaram à mesa”, diz. Ele cita ainda fundos de recebíveis com retorno de CDI mais 14% ao ano, cuja cota sênior paga o equivalente a CDI mais 4%.

 

Segmentos tradicionalmente mais distantes dessas taxas também entraram no radar, e até o de energia elétrica está afetado, afirma o gestor. Ainda assim, ele alerta que o investidor precisa ter cuidado. “Tem de olhar com detalhe, dar um passo atrás, olhar com cuidado, não pode ir com muita sede ao pote, se não vai ser atropelado pelo mercado.”

 

Captações de até R$ 1 bilhão

Há procura dos investidores por fundos de ativos estressados, apesar do juro alto, afirma Renato Herkenhoff, sócio-fundador da Möbius Capital. A gestora, especializada em ativos alternativos, tem entre suas estratégias carteiras de crédito estruturado e situações especiais, além de fundos de ativos judiciais e de ativos reais. “Temos um DNA forte para crédito estruturado no aspecto amplo e com atuação maior do ‘high yield’ até o ‘stressed’, buscando ser o capital que vai agregar soluções para todas as partes saírem ganhando”, explica.

A Möbius tem R$ 1 bilhão sob gestão e estuda captar entre R$ 500 milhões e R$ 1 bilhão com um novo fundo ainda este ano. A estratégia é replicar a trajetória das safras anteriores e aproveitar oportunidades em segmentos nos quais capital flexível e de longo prazo possa destravar valor. O pipeline é diversificado e inclui empresas em crescimento, operações de crédito pulverizado, ativos judiciais e ativos rurais bem localizados. Os prazos desses fundos costumam ser de oito anos, quatro de investimento e quatro de desinvestimento, e um dos principais veículos da casa apresenta retorno de 32% ao ano, ou CDI mais 17%.

Além do ganho diferenciado, Herkenhoff destaca que o investimento em situações especiais faz sentido para grandes investidores, institucionais e até bancos, por ser uma classe descorrelacionada e de retorno de longo prazo. “Não estamos preocupados com quem vai ganhar a próxima eleição, pois procuramos empresas que superem ciclos longos, pois já sabemos os próximos dois anos vão ser complicados, por isso buscamos muita gordura, garantias, para vencer todas as marolas que vão acontecer”, afirma.

 

“Não estão lavando a égua”

Arnaldo Braga, sócio e gestor de crédito da Neo Investimentos, diz que não vê ainda uma onda de oportunidades em empresas em dificuldades e lembra que muitas das recuperações judiciais já eram esperadas. “Tem oportunidade, mas elas não estão aumentando tanto e tem muitos fundos com dinheiro para comprar, o que reduz os prêmios”, diz. “Os fundos de special situations não estão ‘lavando a égua’, estão com retornos OK”, acrescenta.

Braga acredita que a situação pode mudar com a manutenção dos juros em níveis elevados e a desaceleração da economia, mas vê o risco de muitas empresas entrarem em modo de sobrevivência, sem crescer e sem investir. “Elas entram no modo zumbi, não quebram, mas não remuneram o acionista e nem criam oportunidade para ninguém”, diz. Ele enxerga oportunidades no agronegócio, setor que apresenta, no entanto, maiores dificuldades diante da insegurança jurídica e da dificuldade em executar garantias.

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